A experiência a fazer pranchas com madeira serviu como uma boa base? Aí já tinha todas as bases de bordas, fundos, de como tudo aquilo funcionava. Então comprei um bloco de poliuretano e shapeei a primeira prancha, que tenho até hoje. Foi uma single fin, bem larga, que era uma coisa que na época era impossível de ser comprada no Brasil. Mas continuei com o mesmo pensamento, não me considerava um shaper, foi sempre uma brincadeira. No Rio de Janeiro já havia muito shaper, muita gente, eu não queria entrar num mercado que estava saturado. Queria só fazer para mim por brincadeira, nem tinha confiança de pensar em vender uma prancha. Mas aconteceu o mesmo que com a alaia. Fui fazendo uma, fazendo outra, chegava na praia com uma single fin e a galera dizia, “uau, deixa eu usar, deixa eu testar”. Aí, lógico, alguns gostaram e a coisa começou a andar. Por volta de 2010 o shape já estava a tomar mais tempo que o meu próprio trabalho de design.
Uma vez que no Brasil não havia esse tipo de pranchas, de onde vinha a inspiração? A inspiração e pesquisa vinham muito da net, de filmes antigos e de um amigo meu, o Thomas. Ele sempre teve a cabeça aberta para novos modelos, a gente curtia bastante os filmes da década de 70, em que o pessoal surfava só de twin fin. Nessa fase já não queria parar mais, queria fazer e testar todas as pranchas. Acabava por gastar todo o meu ordenado no fabrico de pranchas para mim próprio.
Que tipo de pranchas estavas a fazer na altura? Single fins, twin fins, algumas thrusters mas todas mais redondinhas, com mais volume, mais largas. Depois começou a sair mistura de duas quilhas +1, de 5 com estabilizador, comecei a fazer uns longboards clássicos, single fins que via na Califórnia. Aí começou a vir a parte mais legal, quando eu comecei a ter auto confiança de criar o meu próprio design, em vez de ficar só olhando o que aparecia nas revistas, sites e filmes. Comecei a fazer coisas diferentes para ver se aquilo funcionava que era uma coisa que não tinha muito no meu trabalho de designer de produto. Às vezes eu tinha de criar um produto para uma empresa e eu só via aquilo sendo produzido, não tinha oportunidade de usufruir daquilo nas minhas mãos. No caso das pranchas, era algo que eu podia criar, laminar, jogar na água e testar. Ficava bom ou ficava horrível. Tive algumas frustrações, principalmente nas pranchas assimétricas. Muitas das que eu fazia não funcionavam, ficavam horrorosas mas foi uma época bem legal.